Eficiência energética e a Etiqueta PBE Edifica

A eficiência energética se tornou uma questão urgente. Como sabemos o consumo elétrico nas edificações comerciais, publicas e residenciais correspondem a mais de 48% do total gerado no Brasil, mas não é um problema somente em nosso país. Esse fato ficou mais evidente a partir de 2007, quando o planeta se tornou definitivamente urbano (mais da metade da população mundial vive hoje em centros urbanos).

Esse crescimento faz acender o sinal amarelo e a ONU (Organização das Nações Unidas) lançou em 2010 uma iniciativa conhecida como Sustentable Energy for All, que estabeleceu como uma das metas dobrar a taxa de eficiência energética globalmente até 2030.

O período entre 2014 e 2024 foi declarado pela ONU como a Década da Energia Sustentável para Todos, com a adoção de diversas ações globais. A Agência Internacional de Energia estima que quase metade das ações necessárias para conter as mudanças do clima terá que vir da melhoria da eficiência energética mundial.

Como consequência das conjunturas nacional e internacional a eficiência energética se apresenta como estratégia crucial para combater os efeitos negativos do aumento do consumo energético. Desse modo, o setor de edifícios tem um papel importante nas estratégias e nas ações de eficiência energética.

É sempre válido enfatizar que a energia mais barata é aquela que não se usa.

Para incentivar a eficiência energética no Brasil, desde 2009, o país conta com o Programa Brasileiro de Etiquetagem de Edificações (PBE Edifica), desenvolvido pelo governo brasileiro por meio de uma parceria entre o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) e a Eletrobras/Procel Edifica.

O PBE Edifica é uma forma de avaliar o potencial de desempenho energético de uma edificação, obedecendo normas e regulamentos específicos, a fim de promover a eficiência energética. Encaixam-se nesses critérios projetos de edificações com estratégias bioclimáticas adaptadas as oito zonas bioclimáticas brasileiras, desenvolvidos com atenção à orientação solar, ao conforto térmico, ao aproveitamento da iluminação e ventilação naturais e ao uso de tecnologias mais eficientes.

Visto isso é importante ressaltar que edificações que privilegiem soluções sustentáveis tem maiores chances de obter a ENCE com classe A (mais eficiente), numa escala descendente que vai até a E (menos eficiente).

Essa inciativa brasileira de criar referencias para verificar o nível de eficiência energética de edificações vai ao encontro do que há de mais avançado no mundo. Todos os países da União Europeia são obrigados a ter programas de etiquetagem para eficiência energética nas edificações novas, sejam elas públicas, comerciais ou privadas. Em Portugal, uma das nações mais avançadas nessas questões, os classificados de imóveis nos jornais veiculam informações sobre a etiquetagem, porque os compradores portugueses consideram essa informação na escolha de um imóvel, para eles a tomada de decisão em comprar ou alugar um imóvel se dá, também, por seu consumo energético, ou seja, se o imóvel gasta mais ou menos energia elétrica.

A etiquetagem de eficiência energética é uma solução objetiva e eficaz para atestar o nível de eficiência de um projeto, de edificações e de produtos eletrônicos. Uma geladeira, por exemplo, só é vendida no Brasil com essa etiqueta. Por meio dela, o consumidor pode decidir se leva para casa um eletrodoméstico ou não.

O PBE Edifica propicia aos profissionais e ao consumidor final uma forma inovadora de se pensar as edificações no Brasil. Prédios podem (e devem) ser projetados para aproveitar melhor a luz do sol e criar sistemas de fachadas e vidraças que protegem a entrada excessiva de calor. Uma construção assim exige menos iluminação artificial e uso de ar condicionado.

Ainda, a maioria das edificações brasileiras geram grande desperdício de energia e, na prática, a etiqueta PBE Edifica serve como um indicador da eficiência energética de um produto ou de uma edificação. Faz sentido, portanto, que todas as edificações busquem estratégias melhores para a eficiência e diminuição do gasto energético, sendo que a etiqueta atesta essas práticas e demonstra para o consumidor final que aquela edificação realmente gasta menos energia.

Pense sustentável. Seja eficiente!

Até o próximo post!

Um abraço.

Arq. Wellington Pereira.

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Etiqueta Nacional de Conservação de Energia (ENCE)

Nos últimos 10 anos houve um aumento de 35 % no consumo de energia no Brasil. Tal fator é um dado importante na questão do impacto ambiental e nas mudanças climáticas que o planeta vem sofrendo.

É urgente a necessidade de medidas que mitiguem os riscos de um desabastecimento de energia e ao mesmo tempo diminuam o impacto gerado pelo ser humano.

O desenvolvimento e a construção de cidades sustentáveis é de fundamental importância para mudarmos esse cenário e tornar nossas edificações cada vez mais eficientes, tanto no consumo de energia como de recursos.

O Brasil já está buscando medidas para tal, fazendo com que as emissões de gases de efeito estufa sejam reduzidos, além de dar ferramentas para que cada edificação se torne mais eficiente.

Uma dessas ações é o Programa de Etiquetagem de Energia.

Para melhorar o desempenho energético e o conforto ambiental das edificações o Governo Brasileiro criou a Etiqueta Nacional de Conservação de Energia (ENCE) que atesta a qualidade e a eficiência da edificação, tanto na fase de projeto como na fase de construção. Em um novo artigo abordaremos mais sobre a Etiqueta e o PBE-Edifica.

O vídeo a seguir, desenvolvido pelo Ministério do Meio Ambiente, mostra resumidamente todas as ações e a importância da etiqueta.

Fonte: Projeto 3E, Ministério do Meio Ambiente.

Fica cada dia mais claro a importância da etiqueta como forma de atestar o quanto cada construção é eficiente em termos energéticos, cabendo a nós projetistas e construtores buscar sempre a etiquetagem para efetivar nossas ações em relação a redução do consumo. É importante salientar, também, que a etiqueta é obrigatória para algumas edificações, mas isso é um assunto para o próximo artigo.

Pense diferente. Seja eficiente!

Um abraço.

Arq. Wellington Pereira.

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Eficiência Energética, Conforto Ambiental e o Projeto Arquitetônico – Introdução a questões importantes

Segundo EDWARDS (2013) em 2050 o mundo utilizará o dobro de energia em relação ao consumo atual e grande parte dessa energia será proveniente, ainda, do consumo de combustíveis fósseis, tendo como consequência o aumento de preços (o que já está acontecendo) e os conhecidos efeitos negativos ao planeta.

Porem é cada vez maior a tendência de se produzir energia a partir de fontes renováveis. No caso brasileiro, de acordo com dados do Balanço Energético Nacional (BEM) de 2012, 44% da energia produzida no país é de fonte renovável (hidrelétricas, energia solar, eólica, biomassa, entre outras), fazendo do Brasil um dos líderes na produção de energia renovável, mesmo a matriz energética (usina hidrelétrica) causando um grande impacto onde são instaladas.

Para enfrentar a crescente demanda por energia os arquitetos precisam adotar medidas que promovam o consumo de energias renováveis, principalmente aquelas em que o impacto ambiental é menor. O desenvolvimento dessas fontes deve proporcionar uma solução que não prejudique a saúde dos seres humanos, não destrua o entorno local e tampouco ameace os sistemas naturais.

As edificações projetadas e construídas nos dias atuais ainda irão existir quando as transformações climáticas se tornarem mais intensas. De acordo com EDWARDS (2013) para se adaptar às mudanças climáticas o projeto arquitetônico deve evitar implantações em terrenos vulneráveis, mas além disso deve observar também os seguintes princípios:

  • O volume da edificação (coeficiente de aproveitamento) e a superfície ocupada (taxa de ocupação) são fundamentais para sua sobrevivência, adaptabilidade e eficiência energética a longo prazo.
  • O padrão construtivo precisa ser superior à média, tendo melhor isolamento térmico, maior qualidade dos materiais, melhor conforto, menor custo e desperdício quase zero.
  • Os sistemas de instalação da edificação devem ser atualizados facilmente, especialmente os referentes ao condicionamento de ar e à provisão de energia renovável, já que os avanços tecnológicos não param e se a construção não puder se adaptar ela se tornará obsoleta.

 

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A etiqueta PBE Edifica é uma das maneiras que atestam a eficiência energética da edificação. Fonte: http://www.pbeedifica.com.br/

Os usuários esperam cada vez mais que as edificações ofereçam conforto, atenuando os impactos negativos do clima. As pessoas exigem um alto nível de conforto, mesmo sob as condições climáticas mais adversas, e se o projeto arquitetônico não resolver essas questões de forma eficiente e com menor impacto, os usuários o farão e, na maioria das vezes, com um alto consumo energético e artificial.

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Se o projeto não prevê soluções que gerem conforto de maneira passiva o próprio usuário dará um jeito. Fonte: https://www.correiodoestado.com.br

É importante lembrar que a partir da segunda metade do século XX os arquitetos delegaram a responsabilidade pelo conforto aos engenheiros mecânicos e elétricos, pois acreditavam que tal conforto seria obtido por meio dos equipamentos, e não, pelo projeto de arquitetura (KEELER, 2010). A fragmentação cada vez maior do processo de projeto impediu que se chegasse a um projeto integrado e responsivo ao clima.

Antes do surgimento e da disseminação da utilização do ar condicionado o excesso de calor era amenizado com elementos de sombreamento, circulação de ar e, em climas secos, pela massa térmica dos materiais.

Como não podiam contar com a eletricidade e a refrigeração mecânica, as edificações vernaculares eram extremamente influenciadas pelas respostas ao clima. É possível aprender muito estudando as edificações tradicionais, que são responsivas ao clima. O sombreamento e a proteção dos espaços são fundamentais para uma melhor eficiência energética e conforto ao usuário. Pensar um projeto sem essas questões irá produzir edificações problemáticas do ponto de vista do consumo de energia.

Um projeto que procure uma eficiência energética aliada ao conforto precisa buscar soluções que levem a edificação ao ponto de equilíbrio. A temperatura de ponto de equilíbrio da edificação se refere a temperatura do ar externo necessária para que a temperatura interna fique confortável sem depender do uso de qualquer sistema mecânico de aquecimento ou refrigeração (KEELER, 2010).

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Ventilação e Iluminação naturais e pensadas de forma otimizada são fundamentais para gerar conforto térmico à edificação. Croqui: João Filgueiras Lima (Lelé). Fonte: http://au17.pini.com.br

Nessa temperatura de equilíbrio os ganhos térmicos devidos a iluminação, aos equipamentos, aos usuários e a radiação solar equivalem às perdas térmicas em toda a vedação externa da edificação, que, por sua vez, são causados pelas diferenças de temperatura entre o interior e o exterior. Fatores como orientação das janelas, o projeto da pele da edificação e a seleção de materiais determinam a quantidade de energia necessária para se manter o conforto térmico.

A edificação deve sempre buscar a zona de conforto do usuário, tal zona garante uma adequada utilização da edificação por parte de seus ocupantes. Para a maioria das atividades humanas a zona de conforto está entre 20 e 28 graus célsius e entre 30 e 80% de umidade relativa do ar (KEELER, 2010). Claro que essa zona de conforto pode sofrer uma variação devido alguns fatores como cultura, região, vestimentas, sexo e idade.

Para chegarmos a uma sustentabilidade ecológica será preciso mudar muita coisa além do nosso modo de construir. Não existem edificações sustentáveis, mas sim sociedades sustentáveis. Porém, projetar construções que consomem muito menos energia é essencial para vencer os desafios ambientais.

Para projetarmos visando reduzir significativamente o consumo de energia nas edificações, quais padrões podem guiar nossos esforços? Quais diretrizes devemos seguir? Quais paradigmas devemos mudar e criar?

Todas essas perguntas são fundamentais para definirmos ações e projetos de arquitetura mais eficientes e serão abordadas em outro artigo.

Pense sustentável. Seja eficiente!

Até o próximo post!

Um abraço.

Arq. Wellington Pereira.

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Bibliografia

EDWARDS, Brian. O guia básico para a sustentabilidade. 2a. Edição. Barcelona: Gustavo Gili, 2013.

KEELER, Mariam. Fundamentos de projeto de edificações sustentáveis. Tradução: Alexandre Salvaterra. Porto Alegre: Bookman, 2010.

 

Uma construção sustentável custa mais caro?

As melhorias sugeridas por um projeto sustentável podem reduzir os custos de construção, mantê-los iguais ou aumenta-los em comparação a uma obra tradicional. Os custos dessas estratégias variam conforme a localização da edificação, das condições climáticas e econômicas, aliadas ao passar do tempo, ou seja, a vida útil da construção.

As melhorias e opções sustentáveis utilizadas na edificação podem ser classificadas conforme seus impactos nos custos de construção total.

Dentro desse pensamento algumas estratégias que podem reduzir o custo de uma edificação são:

  • Redução da área de piso
  • Uso de técnicas estruturais adequadas a realidade local
  • Aberturas bem pensadas para otimização de iluminação e ventilação naturais
  • Eliminação de sistemas de climatização em espaços que são desnecessários
  • Redução dos equipamentos de climatização e do tamanho dos sistemas de distribuição em virtude da diminuição das cargas térmicas
  • Uso de um numero de luminárias menor devido a redução das cargas de iluminação, um resultado de projeto otimizado, do uso de paredes, tetos e outras superfícies internas mais refletoras
  • Redução do lixo e desperdício em obras, reflexo de planejamento e técnica construtiva adequada
  • Minimização da utilização de superfícies envidraçadas para melhorar a iluminação natural (sem ofuscamento) e a eficiência da climatização interna da construção
  • Uso de estrutura aparente e superfícies com acabamento próprio do material
  • Uso de árvores e de outros tipos de vegetação para sombreamento

Essas estratégias geram impacto quase nulo no orçamento de uma construção, porém seus benefícios em relação a eficiência e manutenção da edificação são evidentes, tornando a edificação muito mais econômica a médio e longo prazo.

Porém existem melhorias em termos de sustentabilidade que podem elevar os custos de construção, em um primeiro momento, mas que também geram, a longo prazo, uma economia considerável de recursos e de operação da edificação. Estratégias como as elencadas a seguir são de grande importância ao longo da vida de uma construção:

  • Sistemas construtivos racionalizados
  • Uso de sistemas de aquecimento de água
  • Uso de brises, beirais e marquises para sombreamento
  • Produção de energia renovável
  • Coleta de água de chuva
  • Uso de acabamentos e revestimentos que promovam a eficiência energética
  • Uso de luminárias e lâmpadas de alta eficiência
  • Uso de materiais com baixas emissões
  • Uso de coberturas verdes
  • Documentação de atendimento as normas de sustentabilidade

Todos esses itens, por mais que aumentem o custo de uma edificação, vão proporcionar que a edificação se torne mais confortável, saudável, ecologicamente correta e, a longo prazo, econômica. Muitas dessas estratégias vão fazer com que a construção se auto sustente ou irão minimizar a necessidade de abastecimentos externos.

 

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Economia de água, energia e nos custos operacionais são algumas vantagens das construções sustentáveis. Foto: Bigstock

Falar se uma construção sustentável é mais cara ou mais barata do que uma tradicional é relativo e deve-se tomar cuidado com verdades absolutas. Pois a análise deve ser feita levando-se em consideração a vida útil da construção, que é de 50 a 70 anos. Por exemplo, um acréscimo de 5% no valor final da obra pode ser irrelevante frente aos benefícios e a economia gerada por uma construção sustentável durante sua manutenção e operação.

No gráfico a seguir é ilustrado justamente essa relação de gastos consumidos em cada etapa da vida útil de uma edificação.

 

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Gráfico de Custos x Vida Útil

Esse gráfico evidencia que os maiores custos de uma edificação são aqueles responsáveis pela sua operação e manutenção, portanto é muito benéfico as escolhas que favoreçam a diminuição destes gastos, mesmo que em um primeiro momento o investimento seja maior.

Uma construção sustentável é muito mais do que utilizar produtos e estratégias ecologicamente corretos. Ela irá permitir ao usuário usufruir de um espaço confortável, agradável e eficiente em toda vida útil da edificação. Uma construção sustentável melhora a relação do usuário com o ambiente, torna-o mais produtivo, menos propício a doenças e com muito mais disposição, já que no projeto é previsto diversos elementos que favorecem esses fatores. Mas isso é assunto para outro artigo.

Por fim, o que é importante considerarmos quando analisamos a viabilidade financeira de uma construção sustentável é ponderar seu custo-benefício. Devemos pensar: em uma obra de R$ 300 mil será que é muito um acréscimo de R$ 15 mil se considerarmos um período de economia de 50 anos? Será que é inviável dispor desse valor para colher benefícios ao longo de todos os anos da vida da edificação? Qual é o payback (retorno do investimento) das soluções e especificações do projeto?

Todas as respostas à essas perguntas devem ser respondidas pelo arquiteto juntamente com seu cliente. São esses agentes que determinarão quais escolhas serão feitas, o quanto de sustentável e eficiente será o projeto e em consequência a construção.

Um dado importante para definirmos estratégias projetuais é que o consumo de energia elétrica no Brasil cresce aproximadamente 5% a cada ano, conforme dados revelados no Balanço Energético Nacional BEN de 2011, seguido de um aumento gradativo dos custos de energia para o usuário.  Portanto, é de grande importância a implementação de estratégias e soluções que visem a uma maior eficiência energética de nossas edificações.

Até aqui um fator é claro: o que vai determinar se uma construção sustentável será cara ou barata são as escolhas realizadas durante a fase de projeto. Um projeto sustentável pode e deve pautar suas escolhas pelo benefício que será gerado, além de garantir – com o menor custo possível –  a qualidade da edificação e o conforto de quem irá utiliza-la.

Por fim, além de reduzir o custo de operação e melhorar a qualidade de vida, uma edificação sustentável pode ser muito mais valorizada do que uma tradicional, já que gera ambientes mais confortáveis e reduzem o consumo de água e energia, gerando espaços mais saudáveis e com menor impacto ao meio ambiente.

 

Até o próximo post.

Um grande abraço.

Arq. Wellington Pereira

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A importância do Projeto Integrado na arquitetura sustentável

Os graves problemas gerados pelas mudanças climáticas e pelo ser humano exigem que arquitetos e engenheiros se adequem na forma de projetar, buscando uma edificação ecologicamente versátil e adaptável para diferentes situações.

As edificações existentes são de difícil adaptação, pois foram pensadas, normalmente, para atenderem a uma função específica. E tal fator se torna um problema já que a vida útil da edificação é maior que sua vida funcional.

Construções realizadas hoje ainda existirão em um futuro de instabilidade climática e escassez de recursos, e a maneira como projetamos deve otimizar e flexibilizar as futuras edificações.

Segundo EDWARDS (2013), para que isso aconteça é indispensável que a nova geração de construções:

  • Aplique princípios ecológicos desde o início: devem ser incluídos no projeto desde sua fase inicial, para evitar o aumento de custos. Quanto mais alterações futuras o projeto tiver mais seu custo aumentará.
  • Evite funções específicas: embora a função seja a base da forma de uma edificação, sua duração é relativamente curta em comparação com a vida útil de sua estrutura. As edificações muito específicas são inerentemente inflexíveis.
  • Priorize iluminação e ventilação naturais: um projeto sustentável deve se preocupar com aspectos formais da edificação (profundidade e forma) para que a incidência da iluminação natural seja maximizada, incentivando, também, o uso de energias renováveis e passivas.
  • Vise a simplicidade operacional: quanto mais complexa formalmente menor a eficiência funcional ao longo do tempo. A simplicidade das instalações e dos sistemas construtivos permite sua atualização constante, fazendo com que os usuários compreendam corretamente a edificação.
  • Vise a durabilidade: uma construção de baixa qualidade pode se converter em um fardo no futuro. Edificações duráveis e de baixo custo de manutenção podem ter um custo inicial mais alto, porém, a longo prazo, economizam energia e reduzem os resíduos gerados.
  • Maximize o uso de energia renovável: é fundamental que as edificações tenham o maior acesso possível as fontes de energia renovável, principalmente a solar, pois é cada vez mais comum a utilização de equipamentos alimentados por esse tipo de energia. O sol e o vento estão disponíveis e as edificações possuem um grande potencial de não apenas serem autossuficientes energeticamente, mas também em exportar o excedente produzido.
  • Possibilite a substituição de partes: como a edificação irá se deteriorar ao longo do tempo deve-se facilitar a renovação ou substituição de seus componentes. Métodos construtivos flexíveis e desmontáveis simplificam muito os processos de manutenção e renovação.

Para que esses itens sejam contemplados e executados na construção de uma edificação é necessário que todos os envolvidos participem da fase de projeto, desde seu início até a fase executiva de produção. Esse processo, chamado de Projeto Integrado ou Projeto Integrativo, é de suma importância para que todas as decisões sejam tomadas desde o principio do projeto e amadureçam conforme o processo for avançando CHING (2017).

Com o projeto integrado, todos aqueles que participam do projeto – incluindo o proprietário, o arquiteto, os engenheiros, os consultores, os inquilinos e os construtores – trabalham em conjunto, como uma equipe, desde os estágios mais iniciais do projeto.

Esse enfoque colaborativo possibilita que todos contribuam para tornar a edificação mais sustentável, e que os diversos pontos de vista e necessidades sejam levados em consideração no projeto. O planejamento integrado possibilita inestimáveis contribuições para arquitetura sustentável, sobretudo por permitir uma avaliação precoce de custos e vantagens energéticas.

Nesse processo precisamos identificar claramente os objetivos do cliente, desde as etapas iniciais, do modo mais detalhado possível, determinando as prioridades dos proprietários e as condicionantes da construção. Essas decisões iniciais influenciarão as escolhas posteriores, como a tecnologia a ser utilizada para a eficiência energética ou o custo-benefício do sistema construtivo adotado.

O projeto integrado envolve bom senso, permitindo que todos os componentes de uma edificação funcionem em conjunto ao invés de funcionarem como peças isoladas de um quebra-cabeças. Ele é a prática de projetar de maneira sustentável.

Diferente do projeto convencional, o projeto integrado exige um equilíbrio intenso – bem como uma lista de prioridades –  a fim de obter uma edificação sustentável de sucesso. Esse processo funciona sempre que a comunicação entre os membros da equipe é bem-feita e quando cada projetista tem um profundo entendimento dos desafios e das responsabilidades enfrentados pelos seus colegas. O processo integrado é uma troca de experiências, dificuldades e soluções em conjunto. Nas imagens a seguir é perceptível a diferença entre o projeto convencional e o integrado. Nesse último todos os agentes estão envolvidos desde o início do processo

projeto_convencionalFases de um Projeto Convencional. Fonte: GBC Brasil

 

projeto_integradoFases de um Projeto Integrado. Fonte: GBC Brasil

De acordo com KEELER (2010) para que um projeto integrado tenha sucesso temos que nos atentar em relação aos seguintes itens:

  • Entender o escopo do projeto;
  • Quais impactos ambientais do projeto a equipe deverá considerar;
  • Entender as responsabilidades da equipe e definir as atribuições de cada um;
  • Considerar como o projeto de sua equipe abordará as questões do sítio e da comunidade;
  • Ponderar os impactos inter-relacionados das soluções propostas;
  • Estabelecer prioridades;

Em linhas gerais o projeto integrado une as pessoas, os sistemas de todo o processo, as estruturas de negócio e as práticas arquitetônicas-construtivas dentro de um conjunto de soluções que enfatize as melhores propostas para a otimização dos resultados a serem gerados. O processo como um todo eleva o valor do projeto através de uma inteligência compartilhada e coletiva, onde o intuito é reduzir o desperdício e aumentar a eficiência durante todas as fases de projeto e de construção.

 Até o próximo post.

Um grande abraço.

Arq. Wellington Pereira

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Bibliografia

CHING, Francis D. K. Edificações sustentáveis ilustradas. Tradução: Alexandre Salvaterra. Porto Alegre: Bookman, 2017.

EDWARDS, Brian. O guia básico para a sustentabilidade. 2a. Edição. Barcelona: Gustavo Gili, 2013.

KEELER, Mariam. Fundamentos de projeto de edificações sustentáveis. Tradução: Alexandre Salvaterra. Porto Alegre: Bookman, 2010.

 

O que é uma arquitetura sustentável?

Na última década vem crescendo a preocupação ecológica dentro do ambiente da construção civil. As áreas de projeto e construção se viram envolvidas em uma acirrada discussão a respeito do meio ambiente e sobre edificações sustentáveis. Novos objetivos, novos padrões e uma nova linguagem surge para suprir essa demanda. Mas como saber que se trata de uma edificação sustentável? Que parâmetros podemos analisar para que uma arquitetura possa ser considerada sustentável?

Nesse artigo será discutido justamente esses assuntos: até que ponto uma arquitetura é considerada sustentável? Que diretrizes precisamos seguir para realizar um projeto sustentável?

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Fonte: https://vanzolini.org.br

De uma maneira geral a sustentabilidade está relacionada com as promessas de coisas duráveis – edificações com longa vida útil, fontes de energias renováveis, utilização de materiais apropriados e duráveis – e a formação de uma comunidade permanente e que se relacione com o meio onde está inserida.

A arquitetura sustentável é um modo de transformar em realidade as promessas de sustentabilidade (CHING, 2017). É uma maneira de diminuir o impacto gerado pela intervenção humana e urbana.

Mas o que é uma arquitetura sustentável? Esse questionamento deve sempre ser feito quando nos depararmos com uma edificação que se intitula como sustentável. Esse tema pode assumir diversas formas:

  • Uma edificação sustentável seria aquela mais ecológica do que uma padrão?
  • Um projeto sustentável é aquele que tem baixo ou nenhum impacto ambiental?
  • Mas todas as construções não deveriam ser sustentáveis?
  • Edificações sustentáveis são modismos?
  • Construções sustentáveis permanecem sustentáveis ao passar dos anos?

Essas questões são de difícil resolução, já que um projeto sustentável deve ser resolvido através de diversas variáveis e premissas de planejamento, execução e operação da edificação.

 

nanyang-technological-university

Fonte:  http://www.uq.edu.au/uqabroad/nanyang-technological-university

Não há uma fórmula única para que uma arquitetura seja considerada sustentável, mas existem abordagens que cada edificação pode se atentar para diminuir seu impacto no meio ambiente e seja, consequentemente, útil para seus usuários e para a cidade.

Um projeto sustentável deve, de alguma maneira, abordar em suas decisões a tríade da sustentabilidade. São três fatores fundamentais na tomada de decisão de qualquer projeto que tenha um cunho sustentável – fatores social, ambiental e econômico. Podemos tomar como exemplo o diagrama a seguir, que resume os principais aspectos de cada um desses fatores a serem colocados em discussão na realização de um projeto sustentável.

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Fonte: Adaptado de EDWARS (2013, p.11)

Segundo CHING (2017) há diversos objetivos que motivam o desenvolvimento de um projeto sustentável, tais como: diminuir o aquecimento global por meio da economia de energia; proteger as fontes de água; diminuir a utilização de combustíveis fósseis, etc. A utilização e decisão de quais objetivos e estratégias de projeto utilizar vai determinar o quanto a edificação vai impactar o meio ambiente, seja mais ou menos prejudicial.

Seguindo essa linha, Edwards (2013) classifica o projeto sustentável em três tipos de abordagem que vão determinar o grau de impacto da edificação. Edwards classifica os projetos em verde-claro, verde-médio e verde-escuro dependendo da complexidade a ser resolvida pela edificação.

Verde-Claro Verde-Médio Verde-Escuro
Atualmente acessível e com um prazo de retorno de investimento entre 8 a 10 anos:

·         Utilização de métodos construtivos racionalizados, evitando desperdício.

·         Aquecimento de água através de placas solares.

·         Redução do consumo de energia e água através de reeducação do usuário.

 

Previsão de uso de tecnologias ecológicas que serão necessárias durante a vida útil da edificação para manter os níveis de conforto e recursos disponíveis:

·         Energia elétrica gerada por sistemas fotovoltaicos ou eólicos;

·         Captação de águas pluviais;

·         Reciclagem das águas cinzas;

·         Processamento dos resíduos ou sua transformação em energia.

Edificações independentes das redes de abastecimento (água e energia), que durante sua vida útil geram mais energia e recursos que consomem.

Os materiais utilizados para a construção destas edificações também podem ser neutros em emissões de CO2.

Fonte: Adaptado de EDWARDS (2013, p.4)

O que irá determinar a complexidade de soluções e o nível de sustentabilidade que será alcançada é a viabilidade financeira de quem está construindo e o local em que será implantado. Mas tudo parte do princípio de consciência humana em diminuir, ao máximo, o impacto gerado pela construção.

Esse fator de subjetividade de um projeto sustentável só será superado a partir do momento que tivermos diretrizes sólidas e obrigatórias do que é uma arquitetura sustentável. E estas só surgirão quando o ato de construir sustentavelmente deixar de ser uma opção e se tornar uma necessidade (KEELER, 2010). Algo muito próximo de acontecer.

Mas ainda que não possa solucionar todos os problemas, uma edificação sustentável deve:

  • Tratar das questões de demolição no terreno e de resíduos da construção;
  • Buscar eficiência na utilização de recursos;
  • Buscar a conservação de energia e projetar visando ao consumo eficiente de energia;
  • Oferecer um ambiente interno saudável.

 

E um bom parâmetro para que possamos projetar e atestar se uma edificação preza por decisões sustentáveis são as certificações ambientais. Certificações como LEED, AQUA, BREEAM, entre outras, atestam e confirmam qual o grau de sustentabilidade que a construção atingiu, mostrando para o usuário que aquele edifício diminuiu seu impacto no meio ambiente.

De uma maneira geral, a definição de sustentabilidade vem evoluindo ao longo do tempo e não envolve somente a construção civil, mas todos os recursos necessários para o desenvolvimento das atividades humanas.

Segundo Edwards (2013), para o arquiteto, sustentabilidade é – como vimos – um conceito complexo. Grande parte de um projeto sustentável está em reduzir o impacto por meio da economia energética e do uso de técnicas construtivas adequadas, passando pela análise do ciclo de vida dos materiais e da construção em si. Porém, projetar de forma sustentável também engloba a criação de espaços saudáveis, viáveis economicamente e sensíveis às necessidades sociais.

O importante a salientar é que as técnicas e tecnologias construtivas próprias de um projeto sustentável encontram-se atualmente em avançado estágio de desenvolvimento. No entanto, ainda falta uma prática arquitetônica que priorize as questões ecológicas e uma indústria da construção civil que baseie suas operações na sustentabilidade e consequente diminuição do impacto gerado pela atividade.

Uma construção sustentável equivale a um projeto de qualidade, e este sempre se pautará em resolver questões estéticas-construtivas com viabilidade econômica, pensando sempre na preservação do ambiente natural e no usuário.

Até o próximo post.

Um grande abraço.

Arq. Wellington Pereira

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Bibliografia

CHING, Francis D. K. Edificações sustentáveis ilustradas. Tradução: Alexandre Salvaterra. Porto Alegre: Bookman, 2017.

EDWARDS, Brian. O guia básico para a sustentabilidade. 2a. Edição. Barcelona: Gustavo Gili, 2013.

KEELER, Mariam. Fundamentos de projeto de edificações sustentáveis. Tradução: Alexandre Salvaterra. Porto Alegre: Bookman, 2010.

Agora temos um blog!

Olá pessoal,

Estamos inaugurando este novo espaço de artigos, debates, informações e troca de ideias sobre sustentabilidade e eficiência energética na arquitetura.

Aqui iremos abordar diversos assuntos sobre o tema e esperamos colaborar para a difusão de ideias sobre sustentabilidade, racionalização e economia na construção civil.

Fiquem ligados!!!

Um grande abraço.

Arq. Wellington Pereira

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